terça-feira, maio 22, 2007

Genoma: esse falso amigo!

Parece que confiamos sem limites na ciência. Fazemos planos de como será o amanhã. Há uns dias ouvi um biólogo, digno representante da ordem, sobre o advento do genoma humano. Dizia ele que, se tal empresa fosse agora encetada, seria acabada no espaço de um mês e num só laboratório, ao contrário dos 13 anos e vários laboratórios. Conjecturava ainda sobre as possibilidades infinitas desta descoberta. Mesmo balizando os limites deste conhecimento, previa que evoluíssemos para realidades tão abstractas como a terapêutica à la carte, à medida de cada um.

Uma das razões que me fez sair da ciência pura foi esta abstracção. Embora sempre tivesse trabalhado em ciência pura, sempre pensei ter os pés bem assentes na terra. Um dos nossos principais problemas com a ciência é o desligar da realidade. Eu não falo da dicotomia aplicação/não aplicação porque acho que o conhecimento válido é sempre aplicável. O que acho preocupante é este divórcio entre a academia e a indústria. Mais que divórcio, é o movimento em planos completamente diferentes, pois quando se interceptam o resultado é igual a conjunto vazio.

O pensar que estará no horizonte um plano de terapêutica à la carte, e mais que ingenuidade, é um total alheamento da realidade, além de toda a ignorância científica a ela associada.

Ninguém pode negar a importância do mapeamento do genoma. O que sabemos agora é o que está onde. Parece formidável. O problema é que o que sabemos é que o potencial código para a proteína está no loci tal. Fazendo uma comparação muito minimalista, o que nós sabemos é a morada de todas as pessoas do mundo mas não sabemos nem os seus nomes nem as suas profissões. Pior, sabemos a morada de todas as casas do mundo mas, não sabemos nada das pessoas que por lá habitam. Se precisarmos dum canalizador, rompemos um cano e tentamos ver quem acode. Uns não percebem nada, uns pouco desenrascam, e um num milhão percebe mesmo o que está a fazer!

A próxima fase envolve muito mais que o mapeamento. Envolve muito mais que super comutadores. Pensar que a industria está interessada em apostar neste dogma é mover-se numa realidade paralela. Não digo que um dia não será possível mas penso ser a diferença entre um visionário e um tolo a escala temporal!

Sem comentários: