segunda-feira, julho 30, 2007

Free (?)

Como as mentiras que são frequentemente repetidas parecem tornar-se verdade, também as situações há muito por resolver parecem um estorvo depois de resolvidas. Parece incrível mas é verdade, como um condenado a 20 anos ser libertado. Se 20 anos esteve preso como se sentirá agora que liberto?

Não lhe apetecerá marcar uma festa, tão pouco contar. A quem lhe perguntar se foi liberto ele apenas dirá, foi em precária, depois das férias volto lá para dentro. Habituado a ouvir o já falta pouco, nunca acreditou que faltasse pouco. Sempre viu esse dia como distante. Mas agora chegou. Já não vais voltar meu caro, já trouxeste a trouxa da cela e já te despediste dos colegas de cela (poucas amizades fizeste lá dentro!).

Será difícil de perceber aos demais que um condenado queira voltar à cela? A mim não. Vinte anos naquele lugar… A família já se habituara a ir vê-lo à prisão, os amigos (poucos) tinha-os lá dentro. A sua vida era ali, não a empurrar carrinhos de roupa suja mas sim a enroscar casquilhos na oficina. Portava-se bem, era convidado para os programas piloto, tirou cursos, leu livros, enfim, foi bem sucedido. Tão bem que quase não parecia estar preso.

Mas estava. Sempre que voltava da precária sabia que estava preso. Sentia o peso das correntes e as sombras das grades.

Agora está cá fora, liberto, perdido, sem saber o que fazer…

segunda-feira, julho 23, 2007

Adeus Carrefour

O Carrefour vai sair de Porugal.

A razão parece prender-se com o facto de não serem lideres de mercado. A justificação dada é que querem-se concentrar nos mercados onde são número 1. Em Portugal, e face aos rankings divulgados, essa situação estava longe de acontecer, visto que o grupo Sonae lidera com os Modelos/Continentes.

Não fico triste, embora reconheça que gostava de ir ao Carrefour.

Mas este anúncio e esta explicação do número 1 deixa-me a pensar. O Carrefour tinha em Portugal 12 lojas e ao que parece mais uns quantos licenciamentos de novas já aprovadas. Sim, o número 1 da distribuição seria um horizonte longuinquo mas estariam eles a perder dinheiro? Fico um pouco apreensivo pois se já há uma concentração de poderes nesta área, agora ainda o vai haver mais. Fala-se do Grupo Auchan e da Sonae como interessados.

Este grupo Carrefour serviu-me de base a uma teoria que questionava directamente as diferenças salariais entre Portugueses e Europeus. Aquando das eleições francesas, a Segolene agarrou-se a uma "caixeuse" do Carrefour da praça da Bastilha (Paris) dizendo, vergonhoso, esta mulher ganha 900 € (trabalhando part-time). Eu pensei, em Portugal, o preço dos produtos é semelhante, as rendas dos imóveis serão certamente mais baixas... as caixas não ganham aquilo... ganham cerca de um terço! Porquê?

Não quero acreditar que a resposta à minha pergunta será que em Portugal o volume de negócio é menor pois, ao que parece, ainda temos de comer!

Então porque uma cadeia que está a facturar se vai embora? Parece-me que terá recebido uma boa proposta pelos 12 espaços, em adição com algumas dificuldades que a casa mãe possa enfrentar! Não me venham com tretas!

quinta-feira, julho 05, 2007

O Imbecil

Ouvi o António Costa, um dos milhares de candidatos à câmara de Lisboa, dizer ter um plano para fazer regressar jovens famílias a Lisboa. A ideia é então renovar o parque escolar e infraestruturas adjacentes. Segundo ele, esta é a principal causa de abandono da cidade por estas populações. Vou só pôr por outras palavras para não deixar dúvidas do que estamos a falar. Os problemas de abandono da zona nobre da cidade e a migração de famílias jovens para os subúrbios resolvem-se com obras nas escolas e pavilhões.

Tentar adjectivar esta ideia esbarra na completa imbecilidade da mesma. Este senhor candidato (o mesmo que fez a corrida burro/Ferrari na calçada de Carriche, segundo me lembraram) é desprovido de qualquer capacidade de análise e juízo da realidade. Então ao se fazerem obras nas escolas, degradadas por um êxodo sucessivo das novas gerações, as famílias vão regressar. Mas vão regressar para onde? Está previsto um parque de campismo para o Rossio? Talvez na praça da Figueira? A este inergumero nem lhe passou pela cabeça que talvez o que afasta as pessoas desta zona da cidade sejam os preços do imobiliário? Será que já viu o quanto custa uma casa nestas zonas? Realmente, fazer umas obras numas escolas… Você está lá! Por certo terá interesses imobiliários na zona, imagino que tenha adquirido uns imóveis e agora os queira valorizar. Compreendo.

Não se ouviu no entanto nenhuma palavra acerca de Lisboa ter dívidas que a colocam numa situação de falência, nem tão pouco de ter empregados a mais. O que importa e o que é difícil não interessa!